terça-feira, 17 de abril de 2012

PREGAR: POR QUE É NECESSÁRIO MUITAS VEZES O PREGADOR TORNAR-SE UM TROVÃO NO PÚLPITO

Jefferson Magno Costa

      Perguntaram certa vez a João Batista quem ele era. João respondeu: "Eu sou a voz do que clama no deserto" (Jo 1.23). Assim se definiu João Batista. Eu achava que a definição ideal do pregador seria: "aquele que argumenta" e não "voz do que clama". Por que João Batista se definiu fundamentando-se no clamor e não no argumento? Por que não se definiu apoiando sua atividade de pregador na argumentação, e sim nos brados? Porque sobre muitas pessoas neste mundo, o falar alto tem muito mais poder do que os argumentos.
    Vejamos uma prova disto em um exemplo envolvendo o Senhor Jesus.
    Assim que Ele concluiu a exposição da parábola do semeador, começou a clamar (bradar): "Dizendo ele estas coisas, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Lc 8.8). Jesus passou a clamar, e não se deteve mais em argumentar sobre a parábola, conforme fizera até ali, porque sobre aquele auditório os brados tinham mais poder do que os argumentos.   
    Vejamos outro exemplo bíblico.
    Quando Pilatos examinou as acusações que os escribas e fariseus apresentavam contra Jesus, lavou as mãos e disse: "...nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem" (Lc 23.14). Enquanto Pilatos, na sua polidez e serenidade de governador, declarava isto tranquilamente, a atitude dos escribas e fariseus, acompanhados do povo, era outra: "Mas eles instavam [insistiam] com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principais sacerdotes, redobravam" (Lc 23.23).
    Portanto, Cristo tinha a seu favor os argumentos e o parecer consciencioso de Pilatos, e contra si os gritos da multidão. E qual deles prevaleceu? Os gritos da multidão. O parecer sereno e racional de Pilatos não foi suficiente para o livrar, mas os gritos tiveram poder suficiente para o colocar na cruz.
    Tendo os gritos tanto poder sobre a humanidade, é necessário que em algumas ocasiões os pregadores clamem, bradem, gritem. 
     Certamente, foi por reconhecer que os pregadores muitas vezes terão a necessidade de gritar, que o profeta Isaías os chamou de nuvens: "Quem são esses que vêm voando como nuvens?..." (Is 60.8).
     A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio. Relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração. Com o relâmpago ilumina, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio alcança a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim deve ser a voz do pregador: um trovão do céu que assombre e faça tremer o mundo. (Trecho do Sermão da Sexagéssima, pregado em 1655 na Capela Real, em Lisboa, pelo maior pregador da língua portuguesa, Antônio Vieira. Adaptado e atualizado para o leitor do século 21).

Jefferson Magno Costa

domingo, 15 de abril de 2012

JERÔNIMO SAVONAROLA, O PADRE QUE MORREU QUEIMADO POR TER DESOBEDECIDO AO PAPA E SE TORNADO UM PROTESTANTE




Jefferson Magno Costa
     Florença (cidade da Itália), novembro de 1491. O grande sino da Catedral de Duomo acaba de bater meia-noite. Após distender pela décima segunda vez a corda para produzir a última badalada, do alto da torre um homem põe-se a observar as sombras que chegam de várias direções e se reúnem no centro da praça ou sobre os degraus da catedral.
     São pessoas que vêm dormir ali para, no dia seguinte, garantirem um lugar no interior da grande Duomo. Celebrar-se-á casamento de nobres? Algum rei será coroado? O Papa visitará a Duomo? Não. Jerônimo Savonarola vai pregar.
     O homem que observa do alto da torre sabe que o quadro social e espiritual da Florença do tempo de Savonarola é quase o mesmo em toda a Itália: a corrupção, o luxo e a ostentação dos ricos em contraste com a miséria dos pobres, a sodomia entre os homens, as violações dos direitos humanos, os adultérios, a idolatria, as blasfêmias e a decadência da dominante Igreja Romana, cheia de vícios e pecados.
     Por este motivo, já há algum tempo Savonarola tornou-se no púlpito uma tocha ardente e cheia de indignação, um João Batista precursor de uma reforma religiosa que se avizinha. Alicerçado no Evangelho, prega com tanto fervor e tão cheio do Espírito, que suas palavras são como espadas nuas, destramente manejadas contra o pecado, setas de fogo lançadas ao centro dos corações corrompidos.
     E toda a Florença acorre para escutar, deslumbrada e temerosa, os sermões de Jerônimo, que em seus juízos corajosos e ferinos não livra nem mesmo os nomes do regente da cidade e do Papa, principais responsáveis pela devassidão do povo e da Igreja Romana.
 
UM JOVEM APAIXONADO POR ASSUNTOS CELESTIAIS
     Jerônimo Savonarola nasceu na cidade italiana de Ferrara, no ano de 1452. Seus pais queriam que ele ocupasse o lugar de seu avô paterno, que era médico na corte do Duque de Ferrara. Porém, o estudo das obras de alguns teólogos e sobretudo a contínua leitura das Escrituras desviaram-no da Medicina e inclinaram o seu coração para os caminhos de Deus.
     Quando tinha 22 anos de idade, o desprezo dos Strozzi - uma orgulhosa família italiana que não o achou digno de desposar uma de suas filhas -, e a decadência espiritual da cidade de Ferrara levaram-no a fugir para Bolonha, a pé. Nessa época seu entendimento já fora dilatado pelas verdades divinas, e ele aprendera a orar.
     Essa conversação espiritual com Deus abrandou a amargura e a desilusão de sua alma. E o Senhor suavemente se foi apossando do seu coração.
     Em Bolonha erguiam-se os altos muros do Convento de São Domingos. Ali Savonarola se apresentou, impelido pelo desejo de abraçar a vida monástica. Porém não se achava digno de ser monge, e por isso pediu que o aceitassem como um dos encarregados da limpeza do convento. Mas logo suas grandes virtudes pessoais o distinguiram.
     Como uma fonte que mansamente nasce, o desejo de continuamente estar na presença de Deus brotara no seu coração, e agora era como um grandioso e indomável rio, que livremente corre para o mar.


A FORMAÇÃO INTELECTUAL E ESPIRITUAL DO FUTURO GRANDE REFORMADOR
     Savonarola era humilde, obediente e sincero. O tempo que lhe sobrava, após as várias ocupações, empregava-o no estudo, na oração e na contemplação da sublimidade do amor de Deus. Ao acordar pela manhã, elevava o seu coração em súplicas, ofertando ao Senhor as primícias do dia, e pedindo-lhe que estivesse sempre com ele.
     Os superiores do convento passaram a ver naquele rapaz um futuro grande homem da Igreja. Porém jamais imaginaram que ele entraria em luta com o próprio Papa no intuito de reformar a Igreja. Sua inteligência e sobretudo seu fervor religioso levaram esses homens a não medirem esforços para completar sua formação intelectual e religiosa.
     O moço tinha sempre o coração cheio de fé, a alma livre das paixões humanas, e o pensamento continuamente ocupado com o amor de Deus. "Senhor, não reine em minha alma outro além de ti!" - pedia ele em suas orações. O lugar onde se prostrava horas a fio em oração ficava frequentemente molhado de suas lágrimas.
     Seu admirável progresso nos estudos valeu-lhe a nomeação de professor de Filosofia, função que exerceu até a data de sua transferência para o convento de Ferrara.
     Ao chegar ali, dentro dos silenciosos muros do mosteiro de sua cidade natal, entregou-se com mais assiduidade ao jejum, à oração e ao estudo da Palavra de Deus, pois desejava alcançar o que sempre fora a mais ardente aspiração de sua mocidade: tornar-se um inflamado pregador, um arauto do Céu a anunciar, face à impiedade do povo, que se não hovesse arrependimento, o dia do castigo do Senhor estava próximo.
     Porém, suas primeiras tentativas de pregar em Ferrara resultaram em fracasso. Não acostumado a ouvir pregações que denunciassem e reprovassem abertamente os seus pecados, o povo de Ferrara não deu a menor atenção às palavras daquele moço que se propunha a ser "o chicote do Senhor". Jerônimo foi obrigado a dedicar-se inteiramente à instrução dos noviciados, repetindo para si mesmo as palavras de Jesus:
     "Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa" (Mateus 13.57).
     Todavia, os sete anos que passara no convento de Bolonha e as pregações que fizera ali haviam confirmado que Deus o usaria nos púlpitos das maiores catedrais da Itália, e seus ataques corajosos contra a corrupção do povo e da Igreja Romana preparariam em toda a Europa o caminho para a futura Reforma Protestante.


A MUDANÇA PARA FLORENÇA E SEU ÊXITO COMO PREGADOR
     Insatisfeito com a pequena repercussão que suas pregações haviam obtido entre os ouvintes que frequentavam a igreja do convento de Ferrara, Savonarola desejou ardentemente mudar-se para a mais destacada cidade do Renascimento: Florença. Ali foi muito bem recebido pelos religiosos do Convento de São Marcos.
     Naquela época, Florença cultuava a beleza da pintura, da escultura, da poesia e da oratória. Os oradores discursavam preocupados em tornar a frase pomposa, rica e elegantemente floreada.
     Além do mais, para se triunfar no púlpito ou na tribuna, era necessário possuir boa estatura física, além de bela aparência, e fazer uso de atitudes elegantes. Savonarola era a antítese de tudo isto: alto, magro, nariz grande, lábios grossos, boca imensa, atitudes desgraciosas e enérgicas.
     Porém, estas desvantagens físicas não impediram que ele se tornasse o maior pregador de sua época. O intenso brilho dos seus olhos azuis impressionava a todos os que o contemplavam. Parecia que ele estava sempre a querer olhar dentro das almas, ou a contemplar os longos rumos ocultos, os largos itinerários dos corações.
     Savonarola começou a pregar em Florença seguindo um estilo diametralmente oposto ao dos oradores da época, despertando assim a curiosidade de muitos, inicialmente para a sua maneira de usar da palavra, depois para a significação do que dizia.
     Rejeitando as burilações retóricas, numa linguagem espontânea e enérgica, pregava diante de uma assistência cada vez mais admirada do seu modo direto de ir ao assunto. Impressionava a todos o fervor de suas palavras.
     Através das pregações, Savonarola foi conquistando a cidade de Florença. No tempo em que os rijos ventos do pecado sopravam sobre as vidas conturbadas e escuras dos florentinos, sua voz fez com que a Palavra de Deus brilhasse, cada vez mais clara e resplandescente, nos corações.
     Oskar von Wertheimer observou que "suas pregações produziam um efeito indescritível, acontecendo frequentemente aos que as copiavam declararem, à margem dos manuscritos, haver-lhes o entusiasmo ou as lágrimas impedido de continuarem a escrever". 


O MONGE FIEL A DEUS QUE NÃO TEMIA NEM O GOVERNADOR NEM O PAPA
     Falando, certa vez, no púlpito da Catedral de Florença, Savonarola disse que em breve morreriam o Papa Inocêncio VIII e Lourenço de Médicis, e que a Itália seria invadida por Carlos VIII, da França. Essas profecias iriam ser confirmadas posteriormente, aumentando consideravelmente o seu prestígio diante do povo.
     Ao saber dessas previsões, o Governador Lourenço de Médicis, furioso, ordenou a alguns nobres de Florença que procurassem mostrar a Savonarola que suas profecias punham sua vida em perigo. O pregador escutou-os friamente, e em seguida mandou dizer a Lourenço que ele devia se arrepender dos seus pecados.
     Lourenço concluiu que não conseguiria impressionar o monge através de ameaças, e tratou de conquistar-lhe a simpatia. Savonarola era então Prior do Convento de São Marcos, e não se impressionou diante dos muitos favores que o governador subitamente passou a fazer àquela comunidade religiosa.
     Apercebendo-se da inutilidade de seus métodos, e vendo que Savonarola continuava a atacar sua vida tortuosa e desregrada, Lourenço resolveu fazer calar o grande pregador utilizando-se de sua própria arma: a oratória.
     Encarregou Frei Mariano de Gennazano, um dos maiores pegadores florentinos, de pregar alguns sermões contra o Prior do Convento de São Marcos. Foi a grande vitória da oratória sem artifícios sobre a oratória artificiosa. Savonarola impressionou o povo e venceu Frei Mariano fazendo uso de uma eloquência espontânea e simples. Tempos depois, Lourenço de Médicis mandou chamá-lo. Estava à morte. Ao vê-lo, disse o governador:
     "Mandei chamá-lo por ser o senhor o único monge honrado que conheço." Na conversa que tiveram sobre salvação, discordaram em alguns pontos, e Savonarola, depois de muito insistir, retirou-se, deixando o moribundo "a sós com Deus e com sua consciência".
     Após a morte de Lourenço, o não menos corrupto Pedro de Médicis ocupou o seu lugar. Savonarola redobrou sua campanha em prol da regeneração dos costumes. Sob os efeitos produzidos por suas pregações, ladrões e usuários procuravam regenerar-se, mulheres abandonavam o luxo exorbiante, e muitos fugiam à devassidão, almejando viver segundo os preceitos bíblicos.

ATAQUES CONTRA O CLERO E O PAPADO
     Sempre com a Santa Palavra nos lábios, o grande homem de Deus ia pregando com simplicidade, e mudando, espantosa e radicalmente, os costumes do povo italiano. Às vezes, quando queria demonstrar que também sabia pregar de maneira rebuscada como os demais pregadores, surgiam em suas pregações metáforas como esta:
     "Deixam o ouro pelo cobre, o cristal pelo vidro, as pérolas pelo barro, os que pelo barro do mundo, pelo vidro da vaidade e pelo cobre destes bens profanos e transitórios, desprezam o ouro maciço, o cristal puro e as pérolas do amor de Deus e dos bens eternos."
      Nem mesmo o clero escapou de sua sinceridade e coragem, que não conheciam limites. Savonarola atacou frontalmente os vícios dos religiosos de sua época: "Se vós soubésseis as coisas repugnantes que eu sei! - dizia ele diante da multidão que o ouvia, surpresa. E então, corajosamente, sentava a igreja dominante no banco dos réus e a julgava:
     "Vem cá, igreja infamada! Ouve o que te diz o Senhor. Dei-te formosas vestimentas, e tu exercestes com elas a idolatria. Com os vasos preciosos tens alimentado o teu orgulho, tens profanado o que antes era sagrado; a sensualidade te precipitou na vergonha. És pior que uma besta; és um monstro repugnante...Ergueste uma casa de imoralidade e te converteste, em toda parte, numa casa de perdição.
     "Tomaste assento no trono de Salomão e passaste a atrair o mundo às tuas portas. Quem tem dinheiro entra, e pode fazer tudo o que quer, porém quem não tem dinheiro mas deseja o bem, é desconsiderado e expulso."
     Esse julgamento chegou ao conhecimento do papa Alexandre VI, sucessor de Inocêncio VIII, e um dos maiores responsáveis pelas desordens e a vida pecaminosa dos padres. Já há algum tempo os sermões de Savonarola vinham incomodando o Papa, que procurou lançar mão de todos os meios possíveis para fazer o monge calar.
     Travou-se então uma luta ferrenha, que culminou na excomunhão, prisão, tortura e morte de Savonarola.
     Antes, sua sinceridade e guerra declarada à devassidão, desonestidade e hipocrisia já o haviam indisposto seriamente com alguns dos grandes senhores da Itália. Um dos casos mais sérios ocorreu durante uma de suas pregações em Bolonha, quando a mulher de Bentivoglio, um dos homens mais importantes dessa cidade, entrou na igreja provocadoramente, com o intuito de perturbar o pregador e fazê-lo perder o controle do sermão.
     Imediatamente, e sem medir consequências, Savonarola bradou do alto do púlpito:
     - Vejam aí, irmãos, eis o demônio que vem perturbar a Palavra de Deus.
     A frase ecoou por todo o recinto como uma chicotada. Imediatamente os guardas de João Bentivoglio empunharam as espadas e investiram contra o pregador, mas foram interceptados pela maioria dos que ouviam a pregação.
     Savonarola escapou milagrosamente de morrer naquele instante. Porém, apesar dos conselhos que lhe deram para que fugisse imediatamente de Bolonha, ele permaneceu na cidade até pronunciar ali o seu último sermão, quando, no mesmo lugar onde o haviam ameaçado de morte, falou desafiadoramente:
     "Partirei esta tarde para Florença, sem outra companhia além do meu bordão de peregrino. Alojar-me-ei em Pianora. Se alguém quer ajustar contas comigo, que venha antes de minha partida. Entretanto, eu não morrerei em Bolonha, mas em outro lugar".


PASSEATA EM FAVOR DO ARREPENDIMENTO E DA PURIFICAÇÃO DO POVO
     Ele sabia que os poderosos não o deixariam viver por muito tempo. Após sua morte, a Itália seguiria o seu caminho de corrupção e infâmias internas, mostrando, porém, ao mundo, uma face hipócrita de pureza e religiosidade. 

     Savonarola sabia que não poderia parar de pregar. Combateria o pecado até momentos antes de ser enforcado e queimado. E seu exemplo floresceria e geraria muitos frutos na Europa e no mundo.
      Não acreditando que seus auxiliares pudessem ajudá-lo a mudar os costumes do povo, Savonarola apelou para a sinceridade das crianças, que saíam com o sacerdote pelas ruas da cidade fazendo batidas sistemáticas, repreendendo os adultos em suas práticas pecaminosas, e levando para ser queimado tudo o que conseguissem achar em matéria de enfeites, cabelos postiços, livros e quadros indecentes.
      Conta-se que as crianças abordavam as senhoras nas ruas e diziam, cheios de convicção: "Da parte de Jesus Cristo, Rei de nossa cidade, nós te ordenamos a abandonar todas essas vaidades." Savonarola as incentivava a prosseguirem com a "Reforma dos costumes".
     Sobre imensas fogueiras - as fogueiras da vaidade, como costumavam chamá-las -, obras de arte pagã, jóias reproduzindo ídolos, espelhos com figuras indecorosas, livros e toda sorte de objetos considerados pecaminosos eram amontoados e queimados.
     Quando as tropas de Carlos VIII, rei da França, invadiram a Itália, mais uma de suas profecias se cumpriu. Isso contribuiu para que a inveja e o ódio do Papa Alexandre VI se acendesse contra Savonarola de maneira mais violenta que o fogo ateado sobre as "fogueiras da vaidade". Além do mais, as palavras chamejantes do grande pregador haviam continuamente atacado Roma e o "Sumo Pontífice", com a mesma energia que sempre combateram a devassidão da época:
     "O escândalo começa por Roma e corre por todo o continente. São piores que os turcos e os mouros... Os sacerdotes vão por dinheiro ao coro, às festividades e ao ofício; vendem as prebendas, vendem os sacramentos, negociam com as missas; em uma palavra: tudo fazem pelo dinheiro... Este veneno acumulou-se de tal maneira em Roma, que a França, a Alemanha e todo o mundo se contagiou; e chegou a tal ponto que é necessário prevenir-se contra Roma. Entre o povo circula uma frase que diz: '
'Se queres perder teu filho, faze dele um sacerdote!'"

 DECLARADO HEREGE PELO PAPA, E EXCOMUNGADO
     O Papa resolveu tomar providências enérgicas contra Savonarola. Primeiramente dirigiu-se ao governador de Florença, e solicitou que lhe fosse enviado a Roma o monge revolucionário.
     O governador florentino declarou que não lhe era possível atender semelhante pedido, "não só porque faríamos algo indigno de nossa República, como também estaríamos sendo injustos contra um homem que tem trazido tantos benefícios à Pátria. Além do mais, ainda que quiséssemos, não poderíamos fazê-lo sem que houvesse uma revolta popular com grave perigo para muitos, tal e tão grande é o prestígio que esse frade ganhou com sua integridade".
     Mas o Papa estava disposto a lutar e fazer calar, de uma vez por todas, o "chicote do Senhor". Do púlpito, Savonarola comentou o incidente:
     "Chegou de Roma um breve (decisão papal), é verdade. Nele, chamam-me de filho da perdição. Aos que me acusarem diante de vós, queridos irmãos, respondei assim: 'Aquele a quem tu chamas deste modo diz que não possui mancebos nem concubinas, mas apenas prega o Evangelho de Jesus Cristo.
     "Digam também que seus irmãos e irmãs espirituais, e todos os que escutavam a sua doutrina, não andam buscando esses tristes deleites, mas temem a Deus e vivem honestamente'".
     Ao tomar conhecimento desse comentário, o Papa anunciou que Jerônimo Savonarola estava excomungado da Igreja Romana, e em seguida utilizou-se de um meio que se mostraria eficaz para arrancá-lo das mãos protetoras do governo florentino: ameaçou confiscar os bens de todos os florentinos residentes em Roma, e boicotar as mercadorias destinadas a Florença. Nas palavras do historiador Alexandre Vicunã:
     "O efeito foi mágico. Tanto o embaixador florentino, junto à corte papal, como os comerciantes de Florença, residentes nos Estados Pontifícios, exigiram do Governo de seu país que concordasse com a exigência do Papa e entregasse, de uma vez por todas, o monge rebelde. Por um frade não valeria a pena sacrificar o comércio da República!"
     Savonarola foi preso e entregue ao Papa juntamente com seus dois fiéis companheiros, frei Silvestre e frei Domingos, também excomungados. No dia em que o prenderam, esta foi a sua oração:
     "Senhor, eu não peço tranquilidade, nem que cesse a tribulação; peço-te coragem, peço-te amor. Dá-me forças e graça para resistir à adversidade. Eu queria que teu amor triunfasse sobre a Terra. Vês que os malvados se fazem cada dia piores e mais incorrigíveis. É necessário que estendas agora a tua mão poderosa. Quanto a mim, só me restam as lágrimas."


 UM GIGANTE DE DEUS EXECUTADO NA FORCA E NA FOGUEIRA
     Na maior praça da cidade de Florença, uma grande multidão aguarda um espetáculo. É noite. O povo florentino está eufórico e impaciente. Sobre uma imensa fogueira levantada no centro da praça ergue-se uma gigantesca forca. Há três laços preparados.
     Naquele local de execução, dentro de alguns instantes, o grande pregador Jerônimo Savonarola e seus dois companheiros de sonhos e lutas serão enforcados e queimados. Homens, mulheres e crianças comprimem-se para assistir à morte de um dos maiores pregadores e reformadores da história da Igreja.
     Alguns meses antes, aquela mesma multidão vibrava sob o domínio da palavra veemente e cheia de autoridade daquele homem alto e magro, que acabara de chegar ali. Sim. O grande pregador acaba de chegar ao centro da praça.
     Nos seus braços e rosto distinguem-se visíveis marcas de tortura. A multidão silencia por alguns instantes para melhor contemplar sua figura trôpega e sofrida. Após quarenta e cinco dias de tortura e julgamento, ele está quase irreconhecível. Haviam-no maltratado brutalmente. O seu corpo emagrecido fora queimado com ferros em brasa. Esticaram seus braços, desconjuntaram suas pernas, dilataram-lhe seus músculos, partiram-lhe as veias, distenderam o seu corpo no alucinante suplício da roda.
     Os carrascos que conseguem contemplar de perto sua face pálida e arroxeada, coberta de cicatrizes que ainda sangram, sentem-se perturbados com o intenso brilho dos seus olhos. Sua serenidade impressiona. Só o fogo conseguirá apagar, de uma vez por todas, esse penetrante e sereno brilho.
     Subitamente a multidão começa a uivar e a aplaudir. Ouvem-se gritos estridentes, insultos. O povo delira! Os dois companheiros de Savonarola, frei Silvestre e frei Domingos, são obrigados a subir para o alto da fogueira. Ambos também sofreram dolorosos suplícios.
     Com movimentos enérgicos, o carrasco faz suas cabeças passarem por dentro dos laços da forca. A multidão grita furiosamente. Cercado pelos guardas, emocionado, Jerônimo Savonarola contempla seus companheiros de martírio e de jornada heróica, cujos corpos agora balançam no espaço!
     Brilhando serenamente no céu, a lua ilumina seus rostos pálidos e transfigurados. Em poucos instantes, frei Silvestre e frei Domingos estão mortos.
     Um sacerdote aproxima-se do grande pregador e diz: "Vês agora qual será o resultado de tua rebeldia?" Alongando demoradamente o olhar pela vastidão e altura do céu estrelado, Savonarola responde:
     "Muito mais sofreu Jesus por mim." E não diz mais nada. Instantes depois seu corpo é projetado no espaço. Finalmente haviam conseguido calar aquela voz que, poderosa e indignadamente, combatera o pecado.
     A grande fogueira começa a arder, envolvendo os três corpos. Seus vultos de labareda rompem-se sob o brilho da lua que erra no céu, sonâmbula, coroada de auréolas rubras. Naquela noite, aqueles três homens alcançaram a altíssima paz!


Jefferson Magno Costa

quinta-feira, 12 de abril de 2012

MARIA SLESSOR, A MISSIONÁRIA QUE ARRANCOU TRIBOS AFRICANAS DAS MÃOS DE SATANÁS

Jefferson Magno Costa
     É madrugada. A alguns quilômetros da orla marítima, uma mulher e seis crianças negras caminham para a margem de um rio. Chove. Homens e mulheres africanos perguntam:
     - Por que nos abandonas, mãe?
     Maria Slessor pára junto à canoa, volta-se, contempla aqueles semblantes escuros e fala docemente:
     - Não fiquem tristes. Sei que vou para o meio de povos ferozes e adoradores do Maligno, mas eles também precisam ouvir falar de Jesus. Alegrem-se. Eu voltarei. Mas se não voltar, nós nos encontraremos nas margens do Grande Rio, diante do Grande Pai. E ali seremos todos de uma só cor, alvos como o marfim.
     Em companhia das seis crianças, Maria entra na canoa, e parte, sob o olhar silencioso da tribo de Creek Town.
     Maria Slessor nasceu na Escócia, em 1848. Era loura, de cabelos lisos e olhos azuis. Aos onze anos de idade foi obrigada a trabalhar na tecelagem para ajudar financeiramente sua mãe, pois seu pai, alcoólatra inveterado, após a morte de Roberto, o filho mais velho, abandonou a senhora Slessor e os quatro filhos restantes.
      Aos 14 anos Maria já era considerada uma hábil tecelã. Não sabia ela que futuramente Cristo a incumbiria de tecer as vestes brancas da salvação no coração dos negros africanos.
     Sua mãe era evangélica, membro da igreja de Aberdenn, e costumava contar aos filhos alguns incidentes da Missão Africana, viasando despertar-lhes o interesse pela obra missionária.
     Atentos, eles ouviam a senhora Slessor falar-lhes de um rei africano e dos seus chefes de cor; das terras e das boas-vindas que costumavam oferecer aos missionários enviados; dos pretos de Calabar; de como Hope Waddell fora morar corajosamente no meio dos pântanos, e ali brilhar como uma luz, pregando aos selvagens o Evangelho de Cristo, e o quanto a Missão necessitava de obreiros e de manutenção.
     Às cinco da manhã, Maria se levantava e ia para a fábrica, onde permanecia até às dezoito horas. Levava sempre a Bíblia consigo, lendo-a no caminho, quando ia e quando voltava, e durante os intervalos do seu trabalho.
     Nessa época tornara-se membro da igreja de Wishart. Ali, pouco tempo depois, começou a dirigir uma classe bíblica para meninos rebeldes. Para atrair aqueles que se recusavam terminantemente a frequentar a classe, ela promovia reuniões ao ar livre.
     Certa vez um grupo de rapazes perversos resolveu acabar com uma dessas reuniões. O líder do grupo aproximou-se de Maria, sob o olhar dos demais, inclusive das crianças, e começou a girar uma corrente em cuja ponta estava presa uma bola de ferro. E a girava velozmente, avizinhando-a da cabeça de Maria, mas esta, encarando-o firmemente, não denunciava nenhum sinal de medo. 
     "Ela tem coragem" disse o rapaz, desistindo e abaixando o braço com que segurava a corrente. Em seguida sentaram-se todos, e juntamente com as crianças assistiram à reunião.
     Esse incidente contribuiu para mudar a vida daqueles moços, salientando também a coragem daquela que, não temendo lidar com garotos rebeldes nem enfrentar rapazes insubordinados, desafiaria, em plena selva, a agressividade e as lanças dos negros africanos.
     A missão de Calabar, na África Ocidental, tinha sido fundada no ano de 1846. Kurumã estava sendo evangelizado por Robertt Moffat, enquanto David Livingstone, "o fogo das mil aldeias", abria caminho através de todo o restante do Continente.
     O sonho da senhora Slessor era que Roberto, seu filho mais velho, fosse à África auxiliar o trabalho desses missionários. Mas a morte prematura do rapaz fê-la pensar que nunca teria um filho missionário.
     Quando, em 1874, Maria Slessor completou 26 anos, foi pedida em casamento. Mas neste mesmo ano o Império Britânico foi abalado com a notícia da morte de David Livingstone. Fizeram então apelo a voluntários para o continente africano, e Maria, decidindo entre a obra missionária e o casamento, optou pelo primeiro e ofereceu-se como missionária para Calabar.
     Nessa época, ela era aluna da Escola Normal de Edimburgo, e a coragem em seguir para um lugar conhecido como "sepultura dos brancos" deixou forte impressão em todos.
     Em agosto de 1876, no cais de Liverpool, Maria embarcava em um navio que a levaria a um continente que em nada se assemelhava à sua bela Escócia. Tornava-se então realidade o sonho da senhora Slessor.
     Pelas areias brancas de Cabo Verde, pelo Desembocadouro dos Escravos, pela Costa do Marfim e pela Costa do Ouro, a bordo do navio "Etiópia", dois olhos azuis deslizavam sua curiosidade pela misteriosa paisagem que delineia a navegação costeira.
     Maria Slessor, recebendo brandamente no rosto a aragem fresca das praias africanas, contemplava interessadamente aquelas florestas que se erguiam, hostis e impenetráveis, margeando toda a costa.
     Chegando a Calabar, desembarcou e foi conduzida a Duke Town, uma vila litorânea onde residiam alguns missionários. Ali ela viveu durante quatro anos, ajudando nos cultos e estudando a língua local e alguns dialetos nativos.
     Era madrugada ainda quando Maria se levantava para tocar o sino, convocando os crentes à oração. O seu espírito, entretanto, ansiava por um trabalho de maior alcance, a liberdade pioneira, o desbrava-mento daquele solo enegrecido pelo pecado.
     Muitas vezes ela caminhava para a mata fechada e contemplava demoradamente as árvores que se erguiam ao longe, indecifráveis, sumindo no horizonte além. Era ali que se travavam, entre tribos que praticavam a feitiçaria e o canibalismo, os choques mais horrendos e cruéis já contemplados pela natureza humana.
     E era ali que ela deveria estar, entre eles, modificando-lhes as práticas da ignorância e falando-lhes do amor de Jesus.
     Foi de um vilarejo chamado Cidade Velha que lhe veio o primeiro convite para ir evangelizar e morar entre os negros. Ela aceitou, agradecendo a Deus. Agora poderia expandir plenamente a sua vocação missionária.
     Seguiu para lá acompanhada de um guia e alguns carregadores. Quando a vereda por onde caminhavam se dividiu em duas, eles se depararam com um crânio humano enfiado em uma estaca. Ali estava designada a entrada da Cidade Velha.
     Durante mais de dois anos, Maria Slessor viveu naquele povoado como a única mulher branca entre negros, alegre por estar no meio deles, comendo na mesma mesa e falando-lhes da obra salvadora de Jesus.
     As paredes de sua casa eram de taipa e o teto de palha, e havia sempre várias crianças dormindo ali - órfãos e desprezados que Maria abrigava. Pensando nestas e nas outras crianças, fundou uma escola onde lhes ensinava não só o idioma deles, mas também a darem os primeiros passos nos caminhos eternos.
     Aos domingos pela manhã, dois meninos carregando um sino em um pau de bambu, percorriam toda a vila até o local da reunião, trazendo atrás de si um número sempre crescente de negros curiosos que se achegavam para ouvir a "Mãe Branca".
     E quando a noite se declinava sobre o povoado, recebia sempre em sua fronte escura a claridade do cântico daqueles nativos que cultuavam a Deus à luz das tochas vermelhas.
     Certa vez uma canoa pintada de vivas cores e conduzida por quatro negros de pele oleosa e rostos pintados de vermelho aproximou-se das margens do rio que banhava o vilarejo.
     Era a canoa do rei Ocon, chefe da tribo Ibaca, que a enviara juntamente com o convite para que Maria fosse morar em sua tribo. Ela aceitou. Esta seria uma grande oportunidade de evangelizar um povo que desconhecia Cristo.
     Logo, toda a Cidade Velha ficou alvoroçada e entristecida. Mas às três horas da madrugada, despedindo-se de todos, Maria era conduzida rio acima, sob a cobertura de uma esteira improvisada para protegê-la da chuva e da água levantada pelos remos.
     Por um longo espaço de tempo aqueles homens remaram, e quando a madrugada enrubescia as primeiras horas do dia, sob o latido de cães e o cantar dos galos, chegaram a Ibaca.
     Deram-lhe uma casa semelhante à outra onde morava anteriormente. Multidões vieram das vilas vizinhas para ver sua pele branca. Pela manhã e à noite realizava cultos; durante o dia dava remédios aos doentes, fazia curativos em suas feridas ou lhes aconselhava o que deviam fazer.
     Homens, ao natural ferozes e barulhentos, ficavam em completo silêncio ao verem Maria aproximar-se para lhes contar histórias. Ali, ela falou o Evangelho de Cristo a todos os que se achegaram para vê-la.
     Pelos fins de 1882, um tufão passou com extrema rapidez sobre a vila e derrubou a casa de Maria. Ela foi levada a Duke Town, mas o seu estado de saúde se agravou, fazendo-se necessária a sua volta à Escócia.
     Depois de três anos, recuperada e novamente pronta para enfrentar as dificuldades, voltou à África, desta vez dirigindo-se para a tribo de Creek Town.
     Viveu durante seis meses nesse povoado, até quando soube que o rei Eio, chefe da tribo Coiong, praticante da magia negra, a convidara para evangelizar sua tribo.
     Todos se opuseram à sua ida, alegando que aquela tribo não merecia confiança e que o convite era uma cilada. Mas ela não se impressionou, e, acompanhada de seis crianças e alguns carregadores, embarcou na canoa enviada pelo rei.
     Quando alcançaram a desembocadura de Equenque, a canoa foi abandonada, e, sob uma pesada chuva e o choro das crianças, iniciaram a jornada a pé, através de mais de uma légua de mata fechada.
     Sentindo no corpo as roupas encharcarem-se e os pés atolarem-se na lama, Maria avançava cantando trechos de hinos, a fim de encorajar as crianças. Mas em certos momentos era tão grande o seu cansaço que ela só conseguia pronunciar: "Pai, tem misericórda de mim!"
    Chegaram finalmente à tribo. Reinava ali um silêncio profundo. Maria gritou e dois escravos apareceram. Um deles acendeu o fogo e trouxe-lhe água, enquanto o outro correu com a notícia de que a "Mãe Branca" era chegada.
    É noite. Em uma área larga, no centro da tribo, há uma multidão de negros sentados, formando um grande círculo. As casas, distribuídas de modo a formar uma larga circunferência, erguem-se em volta dos ombros escuros. No centro da reunião há uma mesa coberta com uma toalha branca, e, em cima desta, acha-se aberta uma Bíblia.
     Quatro tochas presas a estacas se erguem de um lado e do outro da mesa. As chamas brilham nos rostos atentos. Junto à mesa há vários chefes sentados. E de pé, com os cabelos adquirindo tonalidade de ouro sob a vermelhidão das tochas, Maria Slessor prega ao maior ajuntamento de tribos negras já conseguido de uma só vez.
     O olhar azul contempla a multidão silenciosa e atenta. "Para alumiar os que estão no assento das trevas e na sombra da morte, para corrigir os nossos pés no caminho da paz" (Lucas 1.79), é o trecho lido naquela noite pelos lábios que ainda se abririam inúmeras vezes para pregar a Palavra da Vida.
     Maria Slessor viveu ainda muitos anos entre as tribos africanas. Através de sua voz, milhares de negros tomaram conhecimento de Jesus Cristo e milhares o aceitaram como o Salvador. Ela foi, depois de David Livingstone, a missionária que mais conduziu negros aos alvos caminhos da salvação.
     Em janeiro de 1915, cansada e ainda em plena África, ela foi ao encontro dAquele que, na grandiosidade do seu sacrifício, foi erguido no madeiro para constituir-se na esperança de todos os povos.

Jefferson Magno Costa

terça-feira, 10 de abril de 2012

O QUE SUSTENTA A TERRA NO ESPAÇO?


Jefferson Magno Costa
      Além de crerem em muitas tolices e infantilidades, as nações antigas, que tiveram o povo hebreu como peregrino, escravo e vizinho, faziam uso de diversas fantasias para explicar como a Terra permanece suspensa no espaço. 
     Os egípcios não a imaginavam de forma redonda (apesar de acreditarem que ela havia surgido de um ovo), e sim de forma plana e quadrada, com cinco gigantescos pilares sustentando-a, um em cada canto, e o quinto no meio. Uma nação, cuja arquitetura produziu as imensas e admiráveis pirâmides, jamais poderia admitir que a Terra não tivesse embaixo de si um alicerce sólido.
      Da mesma forma os gregos, com toda a sua evolução científica, artística e filosófica, não conseguiram explicar de maneira menos fantasiosa o modo como a Terra mantém-se suspensa no espaço.
       Diziam eles que um gigante chamado Atlas fora condenado por Zeus (o deus supremo dos gregos) a sustentar a Terra eternamente sobre os seus ombros, conforme os padeiros carregam cestos de pão – com a cabeça sempre curvada para frente. Porém, se alguém lembrasse de perguntar em que o gigante Atlas apoiava os seus pés, os gregos não sabiam responder, e mudavam de assunto.
      Os antigos hindus também faziam uso de uma explicação interessante, quando a conversa caía sobre esse tema. Diziam eles que a Terra estava apoiada sobre as costas de um imenso elefante. O elefante, por sua vez, estava apoiado no casco de uma grande tartaruga, e esta nadava nas águas de um imenso oceano cósmico, espacial.
      Diante de tantas explicações tolas, era de se esperar que a Bíblia tivesse sido afetada por tais crendices, pois os judeus viveram entre esses povos. Porém, quão grandiosamente acima dessas infantilidades estiveram os homens a quem Deus usou como escritores da Bíblia!
     Quão grandiosamente acima de todas essas fantasias estava o patriarca Jó quando escreveu, por volta do XVI Séculos a.C., sob a inspiração do Espírito Santo: “Ele (Deus) estende o norte sobre o vazio, e faz pairar a terra sobre o nada” (Jó 26.7).
      Nenhum cientista teria definição melhor para a invisível força da gravidade do que esta empregada por Jó. Mas como o velho patriarca veio a saber isto? Ele aprendeu com o maior físico do Universo: Deus!

Jefferson Magno Costa

domingo, 8 de abril de 2012

JONAS, O EVANGELISTA QUE TENTOU FUGIR DE DEUS


Jefferson Magno Costa

Leitura bíblica: Jn 3.1,3
     De acordo com o que Jesus ensinou na parábola do semeador, em Mateus capítulo 13, toda mensagem evangélica conta com quatro elementos: o pregador (o semeador), a mensagem (a semente), o ouvinte (os terrenos onde a semente é semeada) e Deus, que trabalha sobre o pregador, a mensagem e o ouvinte.
Vejamos como esses quatro elementos se revelam dentro do livro do projeta Jonas.
O livro de Jonas é composto de quatro capítulos. O 1º. narra o seu chamado e sua fuga. O 2º. narra sua oração no ventre do peixe e sua reconciliação com Deus. O 3º. narra sua segunda chance. O 4º. narra a reação de Jonas ao ver o efeito de sua pregação.
     Em primeiro lugar, vejamos quem era o pregador Jonas. 
 
I- O PREGADOR

CAPÍTULO 1: FUGA E ORAÇÃO NO VENTRE DO PEIXE
O nome Jonas significa “pomba”. Na Bíblia, essa ave simboliza:
1º. O Espírito Santo, aquele que opera o avivamento.
2º. A ave que conduziu o símbolo da esperança, representada pelo ramo de oliveira que a pomba que Noé soltou da arca trouxe para ele, após as águas do dilúvio abaixarem.
1- O missionário, o pregador, o evangelista Jonas foi convocado, como a pomba do Espírito Santo, a levar o avivamento a Nínive: “Levanta-te, vai e prega” (Jn 3.1). Todos nós temos compromisso com a grande comissão. E toda convocação para cumprirmos a grande comissão começa com essa cobrança de atitude: Levantar-se, ir e pregar.
2- Todos nós temos uma cidade de Nínive aonde Deus nos manda pregar, e para onde muitas vezes não queremos ir. Ir pregar em Nínive significa muitas vezes termos que da nossa zona de conforto para enfrentar situações difíceis e pessoas de coração ruim.
3- Nínive, para muitos de nós, fica logo ali ao lado. Muitas vezes é a casa de vizinhos macumbeiros, que já amanhecem o dia invocando demônios através de músicas de macumba, e quase toda a noite alguns deles ficam possessos e dando berros pelo quintal. A Nínive de outros crentes pode ser o seu local de trabalho, a casa de algum parente ou de algum amigo, o colégio, a faculdade, ou qualquer outro lugar que o crente sinta dificuldade de evangelizar. E nessas horas muitos de nós nos tornamos Jonas.  
4- O Jonas da Bíblia, ao ser convocado por Deus, em vez de agir como uma pomba, conforme o seu nome significava, e ir para Nínive levando nos lábios a mensagem de salvação e avivamento, preferiu comportar-se como um corvo, uma coruja: Fugiu e foi esconder-se no porão escuro e malcheiroso de um navio. E lá ele adormeceu. Não orou. Teve a última chance de falar com o Senhor, mas não o fez.
5- Quem não ora antes da tempestade, vai ter que orar dentro do ventre da tribulação que nos cerca e muitas vezes nos engole, vai ter que orar no abismo da angústia.
6- E quem foge da presença de Deus, paga um alto preço, e desce. Jonas pagou até passagem para fugir, e desceu seis degraus. Desceu para desceu de sua cidade para o porto de Jope, depois desceu para o navio, depois desceu para o porão do navio, depois desceu para o meio das ondas, depois desceu para o ventre do peixe, e finalmente desceu para o fundo do mar. 
7- Jonas desceu todos os degraus possíveis para ficar mais e mais longe de Deus. Ele queria ocultar-se da presença do Senhor. Queria esconder-se no porão da solidão, do isolamento, da fuga de Deus. Mas não esperava que fosse ficar tão escondido daquela maneira, no ventre de um peixe.
8- Quem foge para não fazer a vontade de Deus, termina caindo no poço da depressão. Talvez Jonas tenha pensado que fugindo da terra de Israel, onde a presença de Deus era tão viva e constante, pudesse escapar de seu controle. Esqueceu do que está escrito no salmo 139.7-10.
9- Jonas fugiu movido pelo preconceito. Preconceito racial (Jonas disse: são estrangeiros ninivitas, não são israelitas, merecem o meu desprezo), preconceito social (Jonas pensou: não passam de uma nação de bandidos e assassinos. Merecem é cadeia e pelotão de fuzilamento) e preconceito religioso (adoram a outros deuses, não conhecem ao Senhor. São idólatras, macumbeiros e satanistas. Merecem ser destruídos pelo fogo de Deus).
10- Jonas procurou fugir para a cidade mais distante de Nínive. “Onde não for Nínive, é para lá que eu vou; onde ninguém nunca ouviu falar de Nínive, é para lá que eu vou”. Tarsis ficava a oeste, a 4.800 quilômetros de distância de Nínive, a sudeste da Espanha. Deus mandou o missionário para leste, mas ele resolveu não ouvir a voz de Deus e foi para oeste. Resolveu ele mesmo traçar sua trajetória, assumir o controle de suas prioridades, decidir sobre a direção que tomaria a sua vida ministerial.
11- Quem foge da vontade de Deus, torna-se insensível. O missionário fujão deitou-se e adormeceu. Assim que o navio saiu do porto, Deus mandou uma tempestade. O navio estava quase se partindo, a vida de todos estava em perigo, e o profeta Jonas continuava dormindo o sono do egoísmo e da indiferença.
12- Quem foge da vontade de Deus, atrai problemas para si e para quem está ao seu redor. Os marinheiros, mesmo sendo experientes, sentiram muito medo, pois perceberam que aquela tempestade tinha algo de diferente de todas as outras que eles haviam enfrentado.
13- Quem foge da vontade de Deus, não consegue se esconder durante muito tempo. O mestre do navio o encontrou, e após chamá-lo de dormente, de dorminhoco, levou-o para o convés do navio.
14- A marujada já havia apelado cada um para o seu deus. Eles tinham mais temor aos ídolos deles do que Jonas tinha ao verdadeiro Deus. Tiraram a sorte para saber quem era que estava atraindo aquela tempestade. A sorte caiu sobre Jonas. O missionário fujão foi desmascarado. É no meio das lutas e da tempestade que o mundo fica sabendo quem nós somos: Se somos um crente fiel, ou se somos um crente infiel.
15- Jonas disse que era hebreu, e que temia ao Senhor (ao que os marinheiros devem ter dito: ”me engana que eu gosto”), e que era a causa daquela tempestade, pois fugira para não cumprir a missão que o seu Deus lhe dera. Para acalmar o mar, era só lançá-lo nas ondas.
15- Ao contrário de Jonas, que não se importara com a vida de mais de 120.000 ninivitas, os marinheiros se importaram com a vida do profeta, e não concordaram em lançá-lo no mar. Ainda remaram esforçadamente, tentando alcançar a terra. Viram que era inútil, e lançaram Jonas no meio das ondas. O mar se acalmou imediatamente. Os marinheiros pagãos continuaram demonstrando que eram mais tementes ao Deus de Jonas do que o próprio Jonas, porque pediram perdão a Deus antes de jogarem o profeta rebelde no mar, e em seguida ofereceram-lhe sacrifícios e fizeram votos (v. 16).
 
CAPÍTULO 2: A ORAÇÃO E A RECONCILIAÇÃO COM DEUS
1- No capítulo 2, já no ventre do grande peixe, Jonas ora e restaura sua comunhão com Deus. Jonas sentiu que desceu ao coração dos mares, às profundezas do oceano, ao “ventre do inferno”, como ele mesmo se expressou, para só ali abrir o seu coração e falar com Deus.
2- No v. 5 ele falou em três coisas: em águas, que representam a morte (“as águas me cercaram até à alma”); em abismo, que representa o destino dos desobedientes (“o abismo me rodeou”), e em algas, que representam aqui a interferência do Espírito Santo em nosso socorro. Algas no estômago dos peixes irritam e provocam náuseas, levando o peixe a vomitar. Quem foge da vontade de Deus, vira vômito de baleia.

II- A PREGAÇÃO

CAPÍTULO 3: A SEGUNDA CHANCE DE JONAS
1- Jn 3.1-3: “E veio a palavra do Senhor segunda vez a Jonas, dizendo: Levanta-te, e vai à grande cidade de Nínive, e prega contra ela a pregação que eu te disse. E levantou-se Jonas e foi a Nínive, segundo a palavra do Senhor”
2- Nem todo pastor, nem todo profeta, nem todo missionário, nem evangelista recebe de Deus uma segunda chance, como Jonas recebeu.
3- Após ter passado pela escola do estômago da baleia, Jonas finalmente levantou-se e foi cumprir a grande comissão que Deus lhe dera.
4- Mas que semente Jonas usou? Era de se esperar que o profeta pregasse o mais substancioso e eloquente sermão que um profeta judeu já prega em toda a história de Israel. Mas qual foi mesmo o sermão que Jonas pregou?
5- “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida (ou destruída)”. O pregador foi curto e grosso. Sua pregação foi composta de 38 letras, que juntas formaram somente sete palavras. Humanamente falando, e de acordo com as leis da Retórica, da Eloquência e da Homilética, com esse sermão não dava para Jonas converter o beberrão mais bobo da birosca mais pobre de Nínive.

III- O OUVINTE

1- Mas quando Deus resolve salvar o pecador, ele transforma a mensagem mais simples em um poderoso instrumento de conversão. Essa curtíssima mensagem de Jonas teve um resultado que nem pregadores como Spurgeon, Jimmi Swagart ou Billy Graham conheceram no auge de seus ministérios. Levou o rei de Nínive a decretar um jejum que envolveu toda a população de mais de 120 mil habitantes, e até os animais. A cidade inteira se arrependeu dos seus pecados, e Deus a perdoou.

IV- A PEDAGOGIA DE DEUS

CAPÍTULO 4: A REAÇÃO DO PREGADOR AO VER O EFEITO DA SUA MENSAGEM
1- Durante todo o tempo em que pregou em Nínive, Jonas apostou que os ninivitas não se converteriam. Ele mesmo não acreditava em sua pregação. Jonas pregou forçado, empurrado. Mas quando ele viu que apesar de sua má vontade, toda a cidade havia se arrependido de seus pecados, jejuado e alcançado o perdão de Deus, ficou emburrado e voltou a ser o mesmo Jonas de antes da experiência no ventre da baleia.
2- Achou que o Senhor não tinha sido justo em aceitar o arrependimento daquele povo sanguinário, que já causara muito sofrimento a Israel. Jonas se achou mais justo que o próprio Deus da justiça. Ele era do tipo do crente que se acha mais cristão que o próprio Cristo.
       3- Jonas deve ter falado em off para si mesmo, depois que viu a cidade de Nínive arrependida e perdoada: “Eu sabia, eu sabia que essa tragédia ia acontecer! O arrependimento e o perdão desse povo terrível são as únicas coisas que eu nunca gostaria de ver na minha vida!” E depois disse diretamente para o Senhor: “O Senhor está vendo agora por que eu não queria pregar para esse povo? Reconhece agora que eu tinha razão quando tentei fugir para Tarsis? O culpado de tudo isso é o Senhor mesmo, por ser um “Deus piedoso e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que se arrepende do mal” (Jn 4.2).
4- E em seguida pediu para que Deus tirasse a sua vida, pois para ele era insuportável olhar para a cidade de Nínive e não ver labaredas de fogo subindo no horizonte e consumindo todos os prédios, as casas, os homens, as mulheres, as crianças e os animais.
5- A inveja que ele sentia ao ver os ninivitas sorridentes e perdoados colocava-o à beira de sofrer um ataque cardíaco. Então, acalentando no seu coração duro de profeta velho a última esperança de ver Deus arrepender-se de ter perdoado os ninivitas, e torcendo para que o Senhor fizesse cair fogo do céu sobre a cidade, como fizera com Sodoma e Gomorra, Jonas resolveu construir uma cabana, uma espécie de arquibancada, para dali poder assistir a destruição dos ninivitas. Era um espetáculo que ele não queria perder. Afinal, ainda não se haviam passado os quarenta fatídicos dias que ele estabelecera na sua minúscula pregação, e nesse ínterim Deus poderia muito bem mudar de ideia.
6- O calor naquela região era insuportável, e estava quase cozinhando os miolos do profeta, mas calor mesmo iam sentir os ninivitas quando as labaredas de fogo caíssem do céu e transformassem aquela cidade odiosa em um monte de escombros e cinzas. Assim pensava Jonas.
7- Enquanto o “bondoso e misericordioso” profeta enfrentava pacientemente, dia após dia e “por uma boa causa”, o sol escaldante da Mesopotâmia, o Senhor fez nascer uma aboboreira sobre sua cabana, cujas folhas subiram e se amontoaram no teto, trazendo frescor e alívio à sua cabeça, e certamente levando o profeta a pensar com mais lucidez.
8- Alegre por sentir a sombra da aboboreira sobre a sua nobre, justa e merecedora pessoa, o profeta certamente reconsiderou suas expectativas com relação à cidade, e achou que além de fazer cair fogo do céu sobre Nínive, o Senhor poderia muito bem abrir uma imensa fenda de um extremo a outro da cidade, fazendo com que o abismo a engolisse e a fizesse desaparecer para sempre da face da terra. Feliz com suas ideias humanitárias e benéficas à saúde pública, o profeta adormeceu.
9- Mas antes mesmo que o sol surgisse implacavelmente no horizonte, o Senhor enviou um bicho, uma lagarta, que atacou as folhas da aboboreira, levando a planta a murchar e secar. Jonas foi despertado dos seus doces e bondosos sonhos com os fortes e dardejantes raios do sol incidindo sobre sua cabeça, a ponto de desmaiá-lo.
10- Quando voltou a si, o profeta desejou outra vez a morte. Achou que o fato de aquela aboboreira haver murchado tinha representado um desconforto para a humanidade (representada ali unicamente por ele, é claro) só equivalente à perda do jardim do Éden, e um desastre ecológico de proporções tão graves quanto o dilúvio de Noé. E adivinhem sobre em quem ele lançou a culpa de tudo. Sobre o Deus que criara tanto a baleia que o engolira quanto o vermezinho que destruíra as folhas da aboboreira.
11- Na balança da justiça de Jonas, uma aboboreira que ele não plantara nem adubara, e que nascera em um dia e no dia seguinte murchara, tinha mais peso e importância do que mais de 120.000 ninivitas, que nunca haviam sido devidamente esclarecidos sobre o bem e o mal.

CONCLUSÃO:

Certamente, a mensagem que desde o início o Senhor queria que Jonas pregasse a Nínive é esta: “Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel? (ou Ó casa de Nínive?)” Ezequiel 33.11.

Jefferson Magno Costa
Marcelo disse...

A Paz de CRISTO,

Pr Jefferson,desculpe-me usar esse sublime espaço para perguntas,mas:

O LIVRO QUE APARECE NO SEU BLOG SOBRE UM MÉDICO QUE RELATA À CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO É POSTADO PELO IRMÃO OU...É BOMMM?!

31 de janeiro de 2011 21:25

Jefferson Magno Costa disse...

Não, não é bom, prezado irmão e amigo Marcelo Pires: é fantástico, é excelente, é único no mundo em seu gênero. É iniqualavelmente esclarecedor, e capaz de levar um rochedo às lágrimas. Recomendo-o a toda e qualquer pessoa que tenha algum interesse por Jesus Cristo.

1 de fevereiro de 2011 11:01